eu virei a esquina
e vi o diabo
ele tinha a sua cara
e o seu cheiro

mas eu
não sou mais a mesma
eu não tenho medo
do diabo

e nem de você

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Tantas vidas fomos nós dois enquanto sabíamos do amor um pelo outro.

E acabou.

Eu, que já morri
Continuo com os olhos abertos
Observando cada golpe
Que o meu corpo já podre
Teima em aceitar

Eu que já morri
Deixei usarem o que restou
Dos meus ossos
Para que acendessem
A fogueira
Que me queima

Eu que já morri
Ainda sinto o cheiro
Que sai do ralo
Da maldade humana

Eu que já morri
Ainda ouço
As lamentações polidas
Meus pêsames
Sinto muito
Que Deus conforte

Eu que já morri
Ainda sinto o chão gelado
Que o resto do meu corpo
Limpa
Enquanto me arrastam
Pro fim de tudo

Eu
Que já morri
E ainda
Sinto tudo.

Eu fui entrar no carro e bati o joelho no banco. Na hora doeu e eu resmunguei um pouco enquanto segurava uma lágrima que queria denunciar que estava doendo bastante.

Meu joelho sempre dói mas eu quase nunca reclamo. Poucas vezes na vida eu tive hematomas. Eu era bastante desastrada quando criança mas quem sofria com isso era o dedão do meu pé, mais o direito do que o esquerdo. Eu bati o joelho no banco do carro e doeu bastante e eu quis chorar e agora eu tenho um joelho que dói e está roxo.

Eu nunca vou entender como essas coisas acontecem.

Todos os dias quando eu ia comprar pão o cara da mercearia estava varrendo a calçada. Todos os dias ele me dava bom dia da mesma maneira, “Bom dia, meu bem!”, eu sorria de volta e seguia meu caminho.

Um dia ele se distraiu falando do calor que fazia, e de como junto com o aquecimento dos motores das máquinas da loja ficava impossível trabalhar ali.

A tv estava sempre ligada, pra ter assunto com os fregueses, ele dizia.
Ele sorria e me chamava de meu bem.

Eu nunca mais voltei lá.

Eu encostei a cabeça na janela do trem e fechei os olhos enquanto o sol tentava me alcançar. Por um minuto eu nem lembrava mais pra onde estava indo, na cabeça ficou aquele loop eterno ‘what’s goin on?’. Ando assistindo seriados demais, pensei, ao mesmo tempo em que tentava puxar a mala entre as pessoas e conseguir desembarcar.

Parada ali, no meio da estação, senti pela primeira vez o que as pessoas do mundo chamam de coragem.

Não havia pra onde voltar.

pode doer
mas não pode
ser o tempo
todo

um minuto
e já não está mais lá

ou talvez amanhã
quando
ela
for embora
dentro de uma sacola

lavada
passada
engomada

e eu sei
que eu nunca vou
esquecer