‘life isn’t on paper

eu não tenho o que você quer. tem dias que a única coisa que eu queria era não sentir falta. nem de você, nem do seu cheiro e muito menos do seu risinho cínico me dizendo que você sempre consegue o que quer de mim. nada em nós se casa. gostos, expectativas, desejos, gestos. e ainda assim tudo casava tão perfeitinho.
mas agora a gente não se cabe mais. não cabe mais a minha mão na sua, nem o seu braço em volta do meu ombro. não cabe mais o meu olhar sobre você guardando casa detalhe pra poder te desenhar na memória. não cabe mais as noites em claro com todas aquelas coversas e tantas garrafas de vinho que encheriam barris. não cabemos mais entre-nós. eu não posso te oferecer a vida perfeita que você quer. eu que vivo fugindo da perfeição que é caber em você.’

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eu estava presa em uma tempestade. havia um ônibus e algumas pessoas desconhecidas mas para todo lado que se olhasse só havia a água que se acumulava e subia tão rápido que ninguém reparava que ela entrava por todos os lados. eu não estava em londres, eu estava sozinha no meio de uma tempestade. all the time. when you lose something you cannot replace. eu não perdi as chaves.

as pessoas estavam assutadas e eu ouvia uma música enquanto a água arrastava o ônibus. i’ts a new day, it’s a new dawn… nina simone me dava aquela vontadinha de chorar. eu podia estar triste mas não estava com medo. lembrei de londres e de todos os lugares onde eu estive sem você.

a água começou a entrar pelo meu nariz e eu fechei os olhos.

wake up. wake up.

wake up. wake up.

morrer não dói. o que machuca é deixar a bagagem pelo meio do caminho. em todos os quartos de hotel em que eu estive sempre acabei deixando alguma coisa, até o dia em que não tinha mais brincos ou anéis. tudo o que restou cabia em uma mochila mas o peso ainda era difícil de carregar.

morrer não dói. o que machuca é não olhar pra trás, não conseguir se mover, não conseguir respirar com o peso das coisas não ditas. em todos os quartos de hotel em que eu estive eu praguejei contra você. contra nós, contra a vida, contra o que não somos.

wake up/till the end/wake up

morrer não dói. porque sempre tem o sol ardendo na pele, queimando os olhos e me tirando dessa catarse. em todos os quartos de hotel em que eu estive você estava também. like a shadow.

hoje eu acordei esquizofrênica. tinha uma voz na minha cabeça repetindo o tempo todo a mesma coisa: “quem é você?”. eu não sei. “quem é você?” eu não sei, poxa. me deixa aqui quieta. desde quando eu tenho que saber quem eu sou? você sabe quem eu sou? você sabe? eu só sei de onde vim e o que vivi e o que senti. mas eu não sei quem eu sou. você sabe? e ela insiste em perguntas que eu não sei responder. eu não sei. tem manual pra vida? tem regra? tem gps?

ela me perguntou pra onde eu vou. a voz me perguntou pra onde eu vou. eu não sei, caralho. eu não sei. eu só vou indo e se não gostar do caminho eu volto atrás ou mudo, mas vou indo.

hoje eu acordei esquizofrênica. e com sede. enquanto essa voz dentro da minha cabeça me faz perguntas que eu não sei responder, coleciono garrafas de água vazias na minha mesa do trabalho. eu tenho sede. e ouço vozes enquanto tento colocar uma ordem lógica nas coisas. aconteceu isso por causa daquilo e daquilo outro. eu disse aquilo e por causa do que eu disse aconteceu tal coisa. eu penso e a voz me pergunta por quê eu quero saber dessas coisas. eu não sei, porra. eu só quero.

eu só quero não ter que querer nada.

sabe?

era eu lá, nadando contra a corrente. o peito comprimido pela água, o pulmão cheio de gás carbônico. batendo os pés, trocando as mãos. batendo, batendo os pés. subindo até a superfície, puxando todo o ar que fosse possível em meio segundo. lutando contra a corrente sem sair do lugar. subindo até a superfície tentando puxar todo o ar que fosse possível e a cada nova tentativa uma onda me arrastava de volta para o mesmo lugar. nadando, nadando.

tentando, tentando, e quanto mais bato os braços menor é a minha capacidade de chegar a algum lugar. uma onda após a outra me levando sempre pro lado oposto.

até que eu desisti e só fiquei ali boiando pra ver até aonde a onda iria me levar.

eu quis lembrar exatamente de alguma coisa que você tinha me escrito e acabei lembrando que eu mandei pra lixeira todos os e-mails que trocamos durante meses, anos. por muito tempo eles tinham ficado lá na caixa de entrada com estrelinhas pra ter destaque. até hoje só o seu nome na minha caixa de entrada teve estrelinhas. uma lista enorme de estrelinhas ao lado do seu nome.

um dia eu decidi que queria esquecer você e todas as coisas que me fizessem lembrar o seu nome também deveriam desaparecer e eu fui apagando cada uma das estrelinhas e o seu nome foi apagando junto e hoje eu vi que nem na lixeira do meu e-mail você está mais.

não existem mais conversas para lembrar, nem uma frase solta sequer, uma palavra, nada.

não tenho mais aonde te procurar.
que alívio.

Tenho pensado muito em você. Daqui do outro lado do mundo ainda consigo ver os seus passos, pra onde eles te levam? Ás vezes te sinto tão perto, chego a ouvir os seus sorrisos a cada bobagem que eu digo ou faço. Eu fecho os olhos e te vejo me olhando, querendo me entender. Quantas vezes você quis entrar na minha cabeça pra entender o que eu pensava ou porquê eu dizia alguma coisa sem sentido pra você. Engraçado pensar em como ainda nos olhamos e nos enxergamos mesmo de longe, mesmo de longe eu te vejo. Não sei até aonde o seu caminhar vai te levar, e eu que ainda não reaprendi a andar, observo a sua firmeza e quero um dia voltar a caminhar assim também.

Tem um gato me perseguindo. Quando ele não aparece fisicamente, cisma de aparecer nos meus sonhos. E ele debocha das minhas incertezas, veja só: um gato. Que me desafia com os olhos quando eu saio de casa, e isso geralmente só acontece de noite. Você sabe, as pessoas são mais fáceis a noite. Eu nunca fui fácil.

Tenho mesmo pensado muito em você. Na sua graciosidade com a vida, nas suas buscas desmedidas. Você nunca teve medo e isso deve ser bom. Daqui do outro lado do mundo eu te vejo trilhando um novo caminho e quase posso caminhar também.

1991

Eu posso estar errada. Na verdade é bem provável que eu esteja porque em 80% do tempo eu estou errada. Mas existe esse desconforto entre a gente que mesmo entre bites e bytes e sei lá quantos mil metros de fibra ótica embaixo dos sete mares que nos separam eu consigo sentir. Você consegue sentir?

E eu fico abismada, sabe, já que na minha cabeça não seria assim. Na minha cabeça, de alguma maneira, você sempre seria para mim e eu pra você. Mesmo que fosse entre as conversas com os vizinhos que ainda insistem em lamentar o fato de não termos ficado juntos. Nos separamos realmente? É possível se separar de quem é muito mais do que parte de você mesmo? Não sei. Mas eu não sei de tantas coisas. Você sabe?

Eu fiz tantas coisas. Sei que você também. Mas eu nunca escrevi nada sobre você. Não é estranho? Anos escrevendo sobre as pessoas, sobre quase amores. E nenhuma linha sobre você. Outro dia falei sobre isso com uma amiga e ela me perguntou porquê eu tinha guardado isso só pra mim. Não sei, algumas coisas não são possíveis de se explicar com meia dúzias de palavras.

Sobre isso eu sei que não estou errada.

Muito além do sofá

Acontece, meu bem, que você sempre vai ser o cara que lê o jornal aos domingos pela manhã e leva o cachorro para passear. Você sempre vai ser o cara que se levanta cedo, trabalha o dia todo e chega em casa ás sete e meia esperando encontrar o jantar posto á mesa.

Enquanto eu, eu sempre vou ser a garota que toma cerveja madrugada adentro no meio da insanidade humana. Na calçada, enquanto alguém com um chapéu de cisne atravessa a rua, no lugar aonde as pessoas se sentem á vontade para qualquer coisa, aquele sexo no cantinho mesmo que todos estejam vendo, aquela carreirinha, só aquela que é pra aguentar a existência dessa noite. E eu sempre vou estar ali, porque de alguma maneira é disso que eu sou feita.

Porque eu sou noite. E você é dia.