feriado

a gente gosta de chegar cedo pra não ir embora tarde porque amanhã é dia util e todos uma hora tem que voltar pra vida real. e a mesa de sinuca dessa vez não foi tão atrativa quanto a calçada onde colocamos nossa mesa tão pequena quanto a verba da cerveja. a praça ainda está em obras e os tapumes estão coloridos pelo grafite. por causa do show ali na outra praça a calçada é só nossa e dali a gente vê a noite chegar e todos sorriem porque a chuva tão constante esses dias nos deu uma trégua e a nossa única preocupação é acomodar as cadeiras longe dos buracos da calçada. a praça é famosa, fulana mora ali, o conhecido mora do outro lado, a amiga morava lá mas se mudou pra longe por causa do aluguel absurdo. o tempo vai passando devagar e quando a gente menos espera surgem todas as pesssoas vindas da outra praça. mas a nossa cerveja não esquentou porque chegamos cedo, rá. e o amontoado de gente toma conta da calçada, da rua, dos bares. e é quase irresistivel o cheiro da nossa rua preferida que nos pisca vadiamente quando a gente passa por ela, com toda aquela gente que só quer aprender a rir e ser feliz sem culpa. e o metrô está logo ali.

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#5° take

ele sorriu e disse que sabia que eu estava olhando pra ele.

foi quando eu fechei os olhos e lembrei de todo o tempo em que havia sempre um cantinho ali, que é aqui, que era só dele. e que por muito tempo era só um cantinho mesmo e tantas vezes tinha ficado esquecido. e foi então que eu respirei fundo, o mais que eu pude pra não dizer que dessa vez eu queria ficar, eu queria que ele ficasse porque aquele cantinho que era pequeno havia crescido e eu não podia mais controlar e tinha chegado a hora que eu sempre tive medo, escolher entre me jogar no prepicio que eu tanto evitei ou dar meia volta e correr o mais rápido que eu pudesse.

mas eu fiquei ali parada, rezando pra que algum milagre acontecesse e eu fosse desobrigada de fazer qualquer escolha. porque em todas as alternativas era eu quem ia sangrar no fim. filme repetido, reprise de sessão da tarde. e eu covardemente só disse que tinha adorado tudo, o que seria a mais absoluta verdade se não tivesse essa nuvem de medo em cima de mim o tempo todo. lembro de ter ouvido ele dizer que me levaria e do riso ao comentar sobre o meu cabelo.

mas eu não quis, eu não queria que ele me levasse, eu só queria que ele me pedisse pra ficar. nothing hill não é aqui. nothing hill não é aqui.

e o que eu faço com essa vontade absurda de ficar?
o que eu faço com essa vontade de dizer:  – vem se perder comigo.

mas eu não fiquei e ele não quis vir. ficamos assim: pra sempre perdidos no desencontro.

#4° take

ele sorriu e me beijou.

e eu lembrei de tudo o que eu sentia vontade de dizer mas tinha desistido antes mesmo de chegar ali. de como era sufocante aquele calor abafado pela chuva e de como por mais que eu gostasse de estar ali eu sempre sentiria vontade de estar em outro lugar. e eu lembrei de todas as vezes em que eu falei sobre o medo e sobre como bastaria muito pouco pra que eu fugisse. lembrei de todas as vezes em que ele fez a vida parecer simples dentro de toda aquela complicação e como perto dele tudo parecia leve e fácil. era fácil sorrir, era fácil fechar os olhos e ouvir tudo o que ele sabe sobre as músicas que eu não conheço, e era engraçadinho depois de tanto tempo ver como a distância havia mudado a maneira dele falar.

era simples não ter planos, não ter o que esperar porque já estava tudo ali. todas as cartas na mesa, era mesmo uma maneira bastante eficaz pra manter as coisas nos seus devidos lugares. o ar condicionado me irritava porque não era suficiente e pela janela eu via e re-vivia uma outra visita, onde tinha sol e era tudo tão diferente.

o peso de todas as coisas que eu não conseguia dizer fazia o ar ficar mais abafado e toda essa confusão me fez não conseguir dizer coisa alguma, todas as amenidades ficaram insuportáveis, tudo ficou meio perdido e não haveria cigarro que tornasse tudo leve de novo.

ele sorriu e disse que sabia que eu estava olhando pra ele.