eu não suporto

gente comedida, observadora, contida.
que não se entrega, não se rasga, não se mostra.
quem pensa antes de falar, e fala sempre a coisa certa.
quem não abraça apertado, não ri alto. e não fala palavão.
quem se esconde, e cuida do que o outro possa dizer.
gente que não tem pressa, que não se incomoda, que acumula pra si: o gesto, o gosto e o tempo.
essa gente que leva na bagagem todo o amor que ganhou.

e eu queria tanto ser assim.

quando eu tinha nove anos,
eu li adelaide carraro, rubem braga, drumond, fernando sabino, agatha christie e sidney sheldon.
quando eu tinha nove anos
eu acreditava que no ano 2000 o mundo seria como no desenho dos jetsons.
quando eu tinha nove anos
meu maior sonho era ser mordida por um vampiro porque tinha medo de morrer.
quando eu tinha nove anos
eu podia brincar na rua e me esconder do mundo em lugares que ninguém nunca me acharia.
quando eu tinha nove anos
não via a hora do meu pai chegar em casa trazendo chocolate.
quando eu tinha nove anos
eu ouvia elis regina, raul seixas, tom jobim, billy paul, chico buarque, ella fitzgerald e nina simone
quando eu tinha nove anos
eu já queria escrever
escrever
escrever
escrever

 

quando eu tinha nove anos
o universo conspirou.

 

 

Sabe, depois de tanto tempo eu não sei mais pegar o caminho de volta. Não saberia ser blasé o suficiente se tivesse a coragem de ligar e dizer oi-como-vai-tudo-bem-com-você-o-que-anda-fazendo e de novo cairia na minha velha armadilha de tratar mal pra não denunciar o amor. Que não acaba. Que ainda está aqui, quietinho, mas vivo. E eu ando ás vezes sem saber pra onde e quase sempre não sei pra onde voltar. Não me sinto em casa em lugar nenhum, sou sempre estrangeira a quem basta uma rede roubada pra poder trabalhar. E daí os dias são sempre meio iguais, cafés, pub’s, lanchonetes… boates, beijos, cigarros, vodka e ressaca.

Tudo porque em algum lugar do caminho eu me perdi de você. E não consigo mais me achar. Quem sabe qualquer dia desses eu esteja bêbada o suficiente pra te ligar e dizer qualquer asneira como:

“-Me come com pão de queijo?”

eu preciso dizer isso:

não é com você, nem é culpa sua. sou eu e essa minha constante insatisfação com tudo. não é você que mora no meu passado remoto, não é você que me matou. não é nem você que estava aqui até ontem. nem é você que está longe e ainda assim mais perto do que imagina.

sou eu. essa coisa dentro de mim que faz com que nada me baste. eu não me basto. e jogo por aí toda essa lamúria sem fim de dizer “olha gente eu não sou feliz” mas é só assim que  alguma coisa aqui dentro se move. porque eu até que tento, ás vezes quase chego lá. e tem sempre essa voz dentro de mim dizendo que é mentira.

mentira, nunca vai acontecer. não espero mais nada.

eu só preciso dizer, olha não é com você, não culpa sua. eu sei que isso me torna uma pessoa horrivel e desinteressante quando a maior parte do tempo eu pareço a pessoa mais legal e divertida do mundo. e nem eu aguento.

não é que não exista amor, nem vontade. deve ser o excesso.

de amor e de vontade.

e aquela hora que você olha pra todos os lados possiveis e só consegue ver as ausências.
como agora. o dia nascendo com aquele velho clichê barato de passarinhos cantando e o céu clareando devagarzinho e mais uma vez eu me pergunto por onde você anda já que não está aqui.

e eu, babaca, durante muito tempo acreditei que o seu lugar era aqui. hoje sei que não, mas me entristece saber que nem você ainda descobriu onde é o seu lugar. ainda dói demais viver coisas que eu tinha como certo que viveriamos juntos, eu só estou falando de amizade mesmo. acho triste que pra me machucar você tenha que ter atingido tantas pessoas que nada tinham a ver com essa história, embora eu ainda não tenha entendido essa necessidade em ME machucar, só me resta admitir:  you did it.

tão excepcionalmente  bem que não tem mais amor aqui. não tem mais nada. só esse peso da culpa por não ter admitido antes o que eu já sabia há tempos e por isso ter insistido no erro. e eu nem deveria estar falando sobre isso, mas a verdade é que me odeio profundamente a cada vez que eu ainda me pergunto como você está, todas as vezes que eu ainda tento entender o porquê. quando não há nada para entender. só aceitar que as pessoas são o que são e isso não muda. o meu erro foi ter enxergado errado, pintei com cores bonitas o que sempre se mostrou falho, pequeno.

aos poucos até isso, esse peso e esse gosto amargo que você deixou vão deixando de existir em mim. é nesse dia que tudo vai ser esquecimento e redenção.

talvez assim eu volte a ser ao menos uma parte do que eu era antes de você me matar.