Iza

Cheguei atrasada duas vezes. Ou foi ela que não conseguiu me esperar. Jamais saberei.

No dia do show, ela me ligou perguntando onde eu estava:

-To no metrô, Iza. Já to chegando, me espera.

Quando cheguei recebi o recado dela que me pedia desculpas mas teve que ir embora porque estava passando mal. No dia seguinte pelo msn ela me pediu desculpas de novo. Disse a ela que não tinha problema, que eu daria o meu abraço de aniversário assim que ela estivesse melhor, combinamos de marcar alguma coisa quando ela se recuperasse.

Poucos dias depois soube da internação e liguei de novo.

-Como vc tá?

-Ai, amiga… to aqui, né? Tá foda…

-Iza, se cuida. Essa semana eu dou um jeito e desço pra te visitar.

-Vem sim, quero te ver. Te amo, amiga.  Bjo.

-Te amo também, se cuida! Bjo.

No sabádo desci a serra com a Bruna e o Dario, nossos amigos, e ao ligar pro celular dela pra avisar que estavamos em Santos pra ver a Iza recebemos a noticia que ela tinha ido embora.

Poucas vezes na minha vida eu tive essa sensação de perder o chão, é inexplicavél. Não existe forma possível, palavra, adjetivo… não existe nada que defina o que a Iza foi. Exemplo, sem dúvida! Poucas vezes conheci alguém de tamanha sinceridade, de palavras e sentimentos. Foram muitas e muitas madrugadas a fio de conversas… shows, encontros, desentendimentos, risadas. E foram tantos abraços! E foi ela tentando me convencer que eu podia ajuda-la sem machucar porque eu tinha medo que ela sentisse dor quando era preciso ajeita-la na cadeira. E foi ela tantas e tantas vezes me dizendo: Escreva! Escreva! Você sabe fazer isso!

E foi ela quem me ensinou que a maior limitação está na nossa cabeça, não no corpo.

E dizer adeus foi mais dificil que eu poderia imaginar. Mesmo sabendo de alguma forma que a convivência seria breve. Acho que por também sentir isso, ela era a definição da intensidade. Amou como poucos. Amou a banda pela qual nos conhecemos, amou a familia… E que familia LINDA! Que até o ultimo momento a protegeu de coisas que a magoavam. Amou os amigos de tal maneira que nos ensinou a amar. E por isso foi e é  muito muito amada.

Minha amiga, com quem eu dividia o mesmo sobrenome, sempre engajada nas causas de quem amava. Abraçou mais do que ninguém a luta do Fernando, e por ele nutria o amor mais sincero que eu já vi. E ele corrspondeu a altura. E por isso, mesmo estando tão longe, cumprindo seu papel de fazer as pessoas felizes, esteve com ela no fim através das músicas que ela tanto amava e que tocava baixinho perto dela. E foi assim, baixinho, quase sem voz que todos os presentes cantaram para ela: – Belinha, vou te guardar comigo…

E foi em alto e bom som, pra quem quisesse ouvir, que dissemos pra ela o que agora finalmente tem um sentido definitivo:

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você!

Acredito piamente que não nos deixamos, continuamos unidos a ela pelo amor que ela nos deixou, por tudo o que vivemos juntos. Um dia estaremos todos juntos novamente, como nunca deveria deixar de ter sido. Familia é quem o nosso coração escolhe. Não perdi uma amiga, perdi uma irmã, com quem muitas vezes eu implicava… mas sabia que era só estender a mão e ela estaria ali. Agora está aqui, guardadinha no meu coração.

“O que as grandes e puras afeições têm de bom é que depois da felicidade de as ter sentido, resta ainda a felicidade de recordá-las.’

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9 comentários sobre “Iza

  1. Não consegui ler o texto inteiro! Lágrimas fizeram questão de aparecer!

    Muito intenso e verdadeiro! Assim como tudo o que nossa Belinha nos deixou!

  2. Seus textos sempre falam comigo.Sempre intensos e profundos.
    Esse em especial foi além.
    Parabéns por conseguir colocar em palavras dores,saudades e emoções.

    Beijo

  3. fazia um tempo q eu nao falava com ela… acabei me afastando dela e do TM no geral… mas qd me contaram, no sabado, eu nao acreditei, ou melhor, nao pensei… meu cerebro parou… não fui pra santos no domingo pois estou sem caro.. na verdade, acho q foi o medo!
    suas palavras são boas, e a homenagem no show de guarulhos foi a altura dela!
    não fui um irmão pra ela, mas ela foi uma amiga pra mim, falando qd precisava ser falado, e fazendo silencio qd era oq eu precisava…
    não tenho palavras pra descreve-la, e as suas foram perfeitas…
    enfim..
    bjs

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