Maria Luisa

Sabe, filha… Eu que nunca sonhei ser mãe hoje me vejo tão grata á vida por ter você. Você ainda é tão criança e ainda assim tanto tempo passou… Você ainda cabia no meu colo e eu te pegava num braço só quando ficamos sozinhas. Nem sempre a morte é a ausência que mais dói, nós, eu já pelo meio do caminho e vc ainda tão pequena, descobrimos e sentimos isso juntas. Nas noites em que você chorava e eu já não tinha mais palavras pra te confortar e só chorava junto com vc, torcendo pra que o meu abraço de uma mãe com o coração tão partido quanto o seu ao menos fosse capaz de fazer sentir um pouco melhor.

E sempre era doído ver as suas pequenas conquistas infantis e lembrar que aquilo tudo só faria parte do meu mural de lembranças, era tudo meu e eu não queria aquilo só pra mim. E era assim que as coisas doces sempre tinham um quê de amargo amarrado o gosto feliz de ver quem mais se ama na vida indo rumo ao futuro.

E o futuro sempre chega e sempre traz com ele essas lembranças que a gente teima em tentar esquecer. Somos nós duas, há muito tempo tem sido assim. Nossas risadas, nossos silêncios, nossos abraços na cama na hora de dormir e até as nossas pequenas insônias. E eu não sei mais caber outra pessoa nas nossas histórias. E eu não sei mais caber nessa história que nós vivemos até aqui.

E você sorri pra mim sempre que eu te digo dos meus sonhos pra nós e me diz que sonha também, sonha igualzinho, e diz que vai me ajudar. E você sempre vem quando me vê chorar e me diz que vai ficar tudo bem. Sabe, filhos não deviam ver as mães chorarem…

Um dia você vai perceber que eu sempre precisei de você mais do que você precisou de mim, e então os seus dedinhos não serão suficientes pra contar quantas vezes você me salvou. De enlouquecer, de morrer, de desistir, de viver.

Te escrevo porque não saberia falar, porque no fundo acho que não precisaria falar essas coisas todas pra você, essas coisas todas que você sabe. E porque logo as coisas vão mudar, e eu tenho medo, eu tenho tanto medo… tenho medo que um dia essa nossa história não te baste, que perca o valor, que perca a beleza.

Antes de ser eu, sou você. E todas as lembranças de nós, de quando eu encostava a ponta do meu nariz de recém mãe na ponta do seu nariz de recém pessoa e isso bastava, e isso era o amor. Era esse amor que eu nunca sonhei, nunca desejei e ganhei assim de graça. Antes de ser eu, sou você.

Parece que então enfim sou mãe. Oito anos depois de você ter chegado, porque só hoje eu me dei conta do que eu fiz, do que fizemos. Somos nós, estamos nós. Mãe e filha. Eu e você.

Não poderia ser melhor.

Pra você, todo o amor único amor que eu ainda sou capaz de sentir.

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