.da gaveta

_que eu queria te dizer? já não sei mais as palavras, as certas… já não sei colocar as letras numa ordem lógica o suficiente pra me fazer entender. o tempo vai passando e a cada dia seus rastros vão ficando menos nítidos eu já não sei mais como pedir pra você ficar. todos os dias levantar e esperar um milagre, esperar encontrar a palavra certa.

que eu queria te dizer? que eu pretendia? que só as palavras fossem suficientes pra que você ousasse conseguir enxergar tudo isso que eu sinto? e sinto tanto.  e é tanto que muitas vezes pesa… queria eu poder colocar isso tudo num pacote e te entregar: – toma é teu, guarda que te amo, que te amei. guarda que o tempo passa e eu não sei mais o que fazer com isso.

que eu queria te dizer? que  quando você bate as suas asas aí de longe eu ainda sinto esse vento soprar aqui devagarinho…

que eu queria te dizer? quais as palavras certas? por mais que eu procure, já não sei mais. perdi a mão, as letras, as crases. perdi a hora certa do milagre. perdi a mão. estou  muda.

RT@chelseanights

correio já não se usa para ser útil. feliz constatação agora que quero escrever para acertar as contas com o que ainda resta de peso em mim, tenho que escrever para o passado, dizer o que penso de tudo que passei para os fantasmas, esclarecer, refazer um caminho que não sei enfrentar como homem. cheio de buracos, vaidades, pequenos lapsos que criei até aqui para disfarçar o que outros chamariam de erro, ponto fraco, lugar onde não tenho coragem de tocar. meu espelho sem reflexo. onde posso ser claro para muitos, mas obscuro para mim, falando de uma coisa que sequer me diz respeito, não depende da minha opinião ou vontade, fui covarde e nunca mais voltei a ela. não voltei onde não sou medo, infantilidade ou circunstância. onde não sou nada. nem um nada. agora que sei que é impossível, posso tentar escrever uma carta, falando, falando, falando, só isso já deve adiantar, mesmo não sendo importante ou necessário, eu quero tentar pra ver se alguma coisa sai, ou serve, ou acontece, ou muda em mim. só em mim, veja bem. uma carta pra ninguém, pro passado, minha para alguém que não precisa ler. não é carta por contato, para interação, comunicação qualquer. carta por utilidade subjetiva de estilo, não necessariamente prática, pelo puro prazer da experiência com a verdade sensível, com a beleza de um sonho, de uma possibilidade que passou bem longe das minhas posses, das minhas virtudes, da minha vida, foi o canto da sereia óbvio. não aconteceu. quando vira carta, não foi nada.

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[off]

e tem dia que a saudade é tanta… e dói, e dói, e dói. ai que melodrama! que belo jeito de começar um texto-meloso-ai-como-dói-meu-coração. mas tinha umas coisas, e não tem mais. tinha é? olha só! tinha aquele clima, aquele olhar, meu Deus, como brilhavam os olhos! e tinha toda aquela pose “eusoumaisfodaqueosoutros”, e era tão engraçadinho isso. e tinha eu, ali… babando. céus, estou louca.

sabe, eu nem devia dizer essas coisas assim depois de fechar as portas mesmo sabendo que não haveria volta, eu nem devia dizer nada. mas não sinto raiva, nem nada. só amor. tá vendo? eu disse que estava louca. e o que mais dói é que não tinha mais outra saída, ah se eu pudesse. se as coisas fossem diferentes, se você não fosse você… se eu fosse outra dentro de mim. quem sabe?

sinto necessidade de dizer essas coisas tão confusas dentro de mim, essas coisas que nem eu entendo, talvez pra tentar fugir, jogar tudo isso aqui numa tentativa vã que talvez, com sorte, ao dizer escrevendo tudo isso saia de dentro de mim e fique preso nas palavras. ah, mera tentativa, erro fatal.

será que é assim mesmo? viver de lembranças e de silêncio. e eu fico aqui, vendo você tão de longe… tão á mercê das escolhas que fiz. não devia ter falado sabe? eu sabia que não devia falar nada, teria evitado tanta coisa…

te escrevo essas coisas porque… porque eu falo demais mesmo. enfim. fim?

teia

mês passado eu me apaixonei por um demônio. e no mês anterior, e no anterior e em muitos outros anteriores. e quando eu vi o demônio, já sabia que não havia fresta possível por onde escapar.

e todos os dias ele sorria pra mim enquano pisava as migalhas das quais me alimentaria todo esse tempo. e eu sorria de volta. eu sempre sorria de volta, alheia ás migalhas e aos sons e cheiros e sombras vindos de fora. estava presa na teia do demônio.

e o demônio me deixava, presa e inerte. esperando a sua volta, hipnotizada pelo seu sorriso, atordoada pelo seu perfume. e aquela dor já passou. uma hora sempre passa.

e de novo o demônio sorria pra mim, e eu… sorria de volta. sorria numa tentativa inútil de me fazer parecer alheia ao encanto, mera máscara blasé que pra nada servia. e ele sabe… ele sempre sabe a hora certa de sorrir.

mês passado eu me apaixonei por um demônio. estou entregue.

.da volta

…e eu que sempre fui tão senhora das palavras, agora não sei o que dizer. eu, sempre tão cheia de frases e pontos, nunca virgulas, agora não sei como dizer.

é que sempre tinha aquela música, sabe? aquela que só tinha graça com você por perto. e tinha os lugares que sem você perderam a graça. e tinha as horas perdidas em vão sem a conversa, e tinha o silêncio que só fazia lembrar do seu riso. e foi então que não tinha mais você. e foi então que, depois de muito tempo, eu lembrei o que era saudade.

e eu nem sabia que eu gostava tanto assim de você.

.true

_onde foi parar a mão que sempre foi companheira? onde foi parar o ombro que antes era amigo e agora só oferece desdém? onde foram parar todos os anos de todas as coisas vividas e ainda tão vivas? nada disso tem mais valor. o passado enterrou? que força é essa que arranca máscaras com um golpe tão certeiro e fatal? talvez o erro tenha sido esquecer de lembrar que máscaras foram feitas pra cair, assim como a verdade foi feita pra prevalecer sobre a mentira. a diferença, sutil diferença,  é que eu não carrego armas. e o seu punhal é afiado demais.

.do fim

_e você chora. todos os dias, e ninguém vê. não faz diferença, mas você chora. porque a porta se fechou e não há mais berinjelas nem alecrins e hortelãs e isso devia ser bom mas não é. e você chora todo maldito dia porque não tem pra onde correr, não tem quem te abrace e diga que vai ficar tudo bem mesmo que seja mentira. não tem espelhos pela casa, nem a música, nem nada. o sol apareceu mas ainda é frio e você vai continuar chorando, porque não tem mais as cores, nem o cheiro, nem as cinzas, nem o sorriso. e você chora chora chora. tudo bem, ninguém vai ver.