#9051

_só sabe das cenas de um filme quem já o assistiu. a história se repete, e se repete, e se repete. mas as lágrimas, assim como as águas de um rio, não percorrem o caminho de volta. as marcas estão por dentro, ninguém as vê, mas elas estão lá. já não sangram. mas ainda são muito evidentes. o filme se repete. quem vai mudar esse final?

#da minha casa

_as pessoas se enganam ao pensar que todo esse caos no Rio é uma coisa da última década. é tão mais antigo… eu que hoje tenho 30 anos, saí de lá, do lugar que eu teimo em sentir como minha casa, aos 04 anos de idade. vítima de violência, minha familia teve que sair da casa onde moravámos escoltada pela policia. longa história que não vale a pena ser contada.

26 anos se passaram e eu que durante muito tempo sonhei em voltar a viver no lugar onde nasci, hoje sinto uma tristeza profunda em ver a cidade, e o estado, que sempre ouvi aclamarem como o mais bonito do país, o cartão postal do Brazil, tão abandonado a prória sorte. abandonado, entregue aos mosquistos da dengue, á péssimas condições de ensino, hospitais abandonados e finalmente… entregue e rendido á mercê de bandidos. esses que escondidos nos morros se aproveitam da incapacidade do poder publico pra se fazerem respeitar pela comunidade a base de cestas básicas, botijões de gás e parcas caixas de remédios.

pra onde ir quando não se tem pra onde correr? o poder publico nada pode fazer, ou não faz por interesse eleitoreiro? é mais importante se investir BILHÕES de Reais emorganizar jogos pan americanos, copa do mudo de futebol e olimpíadas do que aplicar esse dinheiro todo em educação, saúde e segurança? quantas armas são apreendidas, armas que a polícia não tem, e são destruídas ao invés de serem usadas no combate ao crime, ao tráfico?

não consigo dizer da tristeza que senti ao ver as imagens da “minha casa” sendo mal tratada desse jeito, jovens inocentes perdendo a vida só porque resolveram comemorar a compra de um carro novo na hora errada, um helicóptero em chamas e mais pessoas morrendo. pessoas morrem todos os dias, aqui e lá e em todo canto, mas é tão desolador isso. não poder fazer nada e ver quem pode fazer simplesmente não querer.

sei que não moro num lugar seguro, não esqueci de meninas que morrem por tiros da policia ao voltar da escola. não esqueci de coisas como os ataques que paralisaram São Paulo, não deixei de ver as coisas que acontecem ao meu lado todos os dias.

tantas ongs, lá e aqui, tantas iniciativas, tantas vozes e mão que se levantam pra tentar mudar isso e pouco ou nada conseguem fazer… pra onde vamos correr? em que esquina vamos perder nossas vidas só por colocar a cara na janela na hora errada?

e eu chorei. chorei pelo Rio, pelos que morreram, pelos que ficaram orfãos. chorei pelos que não tem pra onde fugir. chorei por não poder fazer nada. de mãos amarradas, eu chorei. pela minha casa.