#dos porquês

_estou entregue. perdi minha última armadura, o último pedaço de lata que me protegia de mim mesma. não tenho mais pra onde fugir, não tenho mais com o que me defender. estou entregue… ao acaso, a vontade alheia, ao tempo. a última possibilidade de fuga, o único lugar que ainda era seguro. não tenho mais com o que barganhar. perdi-me de mim, abri meu coração e todos os meus porquês fugiram de mim, saíram correndo, sequer consegui  tentar impedi-los. agora, estou entregue.

#do soluço

_eu não sei dizer eu te amo. não sei mais. e era tão fácil… saía assim num soluço. e-u-t-e-a-m-o. mas e agora? não consigo mais, e sinto, sinto tanto! mas não consigo mais dizer, ficou tão difícil e se eu tento é como ter que confessar um segredo que não podia ser revelado. tem algum manual pra isso? deve ter, porque se eu consigo sentir deveria ser fácil dizer. já nem lembro mais como é. e-u-t-e-a-m-o. euteamo. amo. amoamoamo. será que eu tomei água demais e não vou ter esse soluço de novo? será que o botão que solta essa frase se quebrou? eu não sei. mas sinto, sinto tanto!

#way

_fique assim parado. não se mexa, não respire, não pisque. fique assim parado todo o tempo que eu precisar pra decorar você. não precisa dizer nada, não me olhe, não pense. só fique assim parado todo o tempo que eu precisar pra fazer você entender que não precisa dizer nada. eu já sei tudo. fique parado, não se mexa. só por todo o tempo que eu precisar pra ter certeza que você está aqui.

#davitrine

_já faz tanto tempo que eu estou aqui que nem consigo mais contar. tantas pessoas já passaram, muitas me olharam, no início com aquele ar de desejo, agora com desdém. talvez eu fosse muito cara, hoje não passo de modelo da estação passada, produto com validade vencida.  parada aqui nessa vitrine já vi rostos de todos os tipos. e em cada um eu tentei tentei me apegar como se aquele enfim fosse me levar, mesmo que fosse numa sacola qualquer. em algum lugar de mim deve ter algum defeito que me faça ser sempre a peça dispensada e hoje se percebo alguém me olhando, por cinco segundos que seja, tento inutilmente me convencer que dessa vez serei finalmente tirada dessa vitrine onde todos me olham mas ninguém me vê.