mês passado eu me apaixonei por um demônio. e no mês anterior, e no anterior e em muitos outros anteriores. e quando eu vi o demônio, já sabia que não havia fresta possível por onde escapar.

e todos os dias ele sorria pra mim enquano pisava as migalhas das quais me alimentaria todo esse tempo. e eu sorria de volta. eu sempre sorria de volta, alheia ás migalhas e aos sons e cheiros e sombras vindos de fora. estava presa na teia do demônio.

e o demônio me deixava, presa e inerte. esperando a sua volta, hipnotizada pelo seu sorriso, atordoada pelo seu perfume. e aquela dor já passou. uma hora sempre passa.

e de novo o demônio sorria pra mim, e eu… sorria de volta. sorria numa tentativa inútil de me fazer parecer alheia ao encanto, mera máscara blasé que pra nada servia. e ele sabe… ele sempre sabe a hora certa de sorrir.

mês passado eu me apaixonei por um demônio. estou entregue.

…e eu que sempre fui tão senhora das palavras, agora não sei o que dizer. eu, sempre tão cheia de frases e pontos, nunca virgulas, agora não sei como dizer.

é que sempre tinha aquela música, sabe? aquela que só tinha graça com você por perto. e tinha os lugares que sem você perderam a graça. e tinha as horas perdidas em vão sem a conversa, e tinha o silêncio que só fazia lembrar do seu riso. e foi então que não tinha mais você. e foi então que, depois de muito tempo, eu lembrei o que era saudade.

e eu nem sabia que eu gostava tanto assim de você.

 

_onde foi parar a mão que sempre foi companheira? onde foi parar o ombro que antes era amigo e agora só oferece desdém? onde foram parar todos os anos de todas as coisas vividas e ainda tão vivas? nada disso tem mais valor. o passado enterrou? que força é essa que arranca máscaras com um golpe tão certeiro e fatal? talvez o erro tenha sido esquecer de lembrar que máscaras foram feitas pra cair, assim como a verdade foi feita pra prevalecer sobre a mentira. a diferença, sutil diferença,  é que eu não carrego armas. e o seu punhal é afiado demais.

Não espere me perder pra sentir a minha falta.

_e você chora. todos os dias, e ninguém vê. não faz diferença, mas você chora. porque a porta se fechou e não há mais berinjelas nem alecrins e hortelãs e isso devia ser bom mas não é. e você chora todo maldito dia porque não tem pra onde correr, não tem quem te abrace e diga que vai ficar tudo bem mesmo que seja mentira. não tem espelhos pela casa, nem a música, nem nada. o sol apareceu mas ainda é frio e você vai continuar chorando, porque não tem mais as cores, nem o cheiro, nem as cinzas, nem o sorriso. e você chora chora chora. tudo bem, ninguém vai ver.

_só sabe das cenas de um filme quem já o assistiu. a história se repete, e se repete, e se repete. mas as lágrimas, assim como as águas de um rio, não percorrem o caminho de volta. as marcas estão por dentro, ninguém as vê, mas elas estão lá. já não sangram. mas ainda são muito evidentes. o filme se repete. quem vai mudar esse final?

_as pessoas se enganam ao pensar que todo esse caos no Rio é uma coisa da última década. é tão mais antigo… eu que hoje tenho 30 anos, saí de lá, do lugar que eu teimo em sentir como minha casa, aos 04 anos de idade. vítima de violência, minha familia teve que sair da casa onde moravámos escoltada pela policia. longa história que não vale a pena ser contada.

26 anos se passaram e eu que durante muito tempo sonhei em voltar a viver no lugar onde nasci, hoje sinto uma tristeza profunda em ver a cidade, e o estado, que sempre ouvi aclamarem como o mais bonito do país, o cartão postal do Brazil, tão abandonado a prória sorte. abandonado, entregue aos mosquistos da dengue, á péssimas condições de ensino, hospitais abandonados e finalmente… entregue e rendido á mercê de bandidos. esses que escondidos nos morros se aproveitam da incapacidade do poder publico pra se fazerem respeitar pela comunidade a base de cestas básicas, botijões de gás e parcas caixas de remédios.

pra onde ir quando não se tem pra onde correr? o poder publico nada pode fazer, ou não faz por interesse eleitoreiro? é mais importante se investir BILHÕES de Reais emorganizar jogos pan americanos, copa do mudo de futebol e olimpíadas do que aplicar esse dinheiro todo em educação, saúde e segurança? quantas armas são apreendidas, armas que a polícia não tem, e são destruídas ao invés de serem usadas no combate ao crime, ao tráfico?

não consigo dizer da tristeza que senti ao ver as imagens da “minha casa” sendo mal tratada desse jeito, jovens inocentes perdendo a vida só porque resolveram comemorar a compra de um carro novo na hora errada, um helicóptero em chamas e mais pessoas morrendo. pessoas morrem todos os dias, aqui e lá e em todo canto, mas é tão desolador isso. não poder fazer nada e ver quem pode fazer simplesmente não querer.

sei que não moro num lugar seguro, não esqueci de meninas que morrem por tiros da policia ao voltar da escola. não esqueci de coisas como os ataques que paralisaram São Paulo, não deixei de ver as coisas que acontecem ao meu lado todos os dias.

tantas ongs, lá e aqui, tantas iniciativas, tantas vozes e mão que se levantam pra tentar mudar isso e pouco ou nada conseguem fazer… pra onde vamos correr? em que esquina vamos perder nossas vidas só por colocar a cara na janela na hora errada?

e eu chorei. chorei pelo Rio, pelos que morreram, pelos que ficaram orfãos. chorei pelos que não tem pra onde fugir. chorei por não poder fazer nada. de mãos amarradas, eu chorei. pela minha casa.

Eu amo tudo o que foi,

 Tudo o que já não é,

 A dor que já me não dói,

 A antiga e errônea fé,

 O ontem que dor deixou,

 O que deixou alegria

 Só porque foi, e voou

E hoje é já outro dia.

“o que você mentir, eu acredito.”
 
 
 
_vem aqui, senta do meu lado. tudo bem que já é tarde mas o mar fica mais bonito a noite. tudo bem sim, eu só quero ficar aqui com você. deixa eu encostar a cabeça no seu ombro, porque me faz acreditar que amanhã tem sol. segura a minha mão, me deixa ficar aqui. tudo bem que tem a areia, mas a noite o vento é mais suave. e você sorri. e você segura a minha mão. e você me deixa encostar a cabeça no seu ombro. e amanhã tem sol. e você me diz que vai ficar tudo bem e que sabe que temos um ao outro. e você sorri, e me olha. e eu seguro a sua mão porque a noite o mar é mais bonito e o vento é mais suave. e tudo bem que tem a areia porque o sol vai sair e estamos aqui de mãos dadas nessa areia, olhando esse mar e olha. hoje tem sol.

_não quero mais o céu que você fez pra mim. não quero mais as suas cores, os seus cheiros, as suas palavras. não quero mais os seus quês, nem os porquês. não quero mais o som dos seus passos. nem o seu riso enchendo todos os espaços dentro de mim. não quero mais defender com mentiras o que a verdade dos seus olhos grita tão alto. não quero mais esperas sem recompensas. não quero mais não ter lembranças. não quero mais as janelas abertas esperando o dia de você nunca vir. não quero mais justificar as minhas palavras e me arrepender depois. não quero mais essa vida com você dentro dela.

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